GRUPO DA CVF RECEBENDO DOAÇÃO DE CÔCODesde criança tenho afinidade com pessoas idosas. Meus avós moraram com minha família porque era uma tradição da cultura japonesa, filho mais velho deve cuidar dos pais, mas meu pai não era o mais velho, ele era o mais velho dos filhos que vieram junto com a família ao Brasil. E assim, cumpriu seu papel irretocavelmente cuidando até os últimos dias de vida dos meus avós. Exemplo de vida que carrego para a eternidade! Já adulta, casada, com filhos, iniciei a minha trajetória solidária com crianças de orfanatos durante dois anos e mais tarde, fui voluntária em asilos e casas de repouso por quatro anos, que me deram base para um trabalho social que transformou a vida de muita gente, a começar pela minha, o Centro Dia para idosos Casa do Vovô Feliz em 2005.

Nessas casas de longa permanência para idosos conversava com eles e a maioria carregava uma tristeza enorme, que lógico, eu entendia o porquê, mas algo me intrigava, por que as famílias acabavam abandonando os seus idosos nesses lares? Por que a solidão e a desesperança invadiam os quartos e corredores afastando os que íam lá? Sim, porque muitos não mais queriam ir depois da primeira visita, alegando dificuldades na despedida.

Minha curiosidade aguçada me levou a interagir/pesquisar mais sobre este assunto. Iniciei com as pessoas ligadas a eles, tanto os idosos quanto familiares e trabalhadores desses locais. Dentre vários fatos, um foi marcante. Uma idosa ao completar 90 anos, seu filho e nora levaram-na ao asilo para comemorarem seu aniversário lá com bolo e guaraná e de lá nunca mais ela saiu. Foram visitar algumas vezes até que as visitas se espaçaram até acabar. Vivia com o olhar marejado direcionado para a porta de entrada da salona onde passavam uma boa parte do dia, como vários deles, sentados a esperar pela visita do seu familiar.

Pedi o contato da família para saber o por quê de não virem visitá-la e a própria responsável pelo local me forneceu a resposta, que foi como uma flecha de gelo em meu coração, a nora dela estava com câncer avançado e não tinha mais condições de cuidar dela em sua casa e seu filho que ía visitá-la acabou desistindo porque a cada visita ela suplicava que a levasse para casa, chorava, gritava, se desesperava. E ele também se adoentou e não teve mais condições de ir. Os dois se negaram a contar a verdade para a idosa…

E as outras observações que obtive nas minhas pesquisas não foram tão diferentes dessa relatada, mas ela foi o estopim para que a minha mente se expandisse e permitisse uma abertura de consciência para uma causa maior. Não poderia ficar inerte diante de tantos relatos, tantas vidas esperando apenas o seu fim, ali, parados, fitando um horizonte perdido em algum tempo de suas vidas.

E Deus concedeu, em inspiração, lugar de idoso é no convívio com seus familiares… Um projeto de uma creche para idosos, a CRECHE DO VOVÔ, onde o trabalho maior seria a prevenção dos males que acometem essa faixa etária, um local onde ocupariam bem esse tempo da vida com atividades que fortalecessem suas emoções e seu físico, estimulariam sua autonomia e elevariam sua auto estima, enfim um lugar onde pudessem ir e vir todos os dias e retornar aos seus lares no final do dia para não perderem os vínculos familiares muito menos sua dignidade.

Por questões burocráticas a implantação ocorreu como um centro dia com pessoas que ainda tivessem autonomia e condições de ir e vir sozinhos à instituição e, que participassem de oficinas com conotação terapêutica para melhorar a qualidade de suas vidas. Assim nasceu o Centro dia para idosos CASA DO VOVÔ FELIZ, na cidade de Itapecerica da Serra, em São Paulo. Esse local transformou a minha vida, dos meus familiares, de amigos e também de desconhecidos que abraçaram a causa e nós, de simples coadjuvantes nas ações voluntárias de segmentos religiosos ou particulares, passamos a ser protagonistas do trabalho social da Instituição, mais que isso, na vida das pessoas que ali vem em busca de um acolhimento, de uma escuta, de uma palavra amiga, de um novo olhar num momento delicado de suas vidas, geralmente iniciando uma depressão ou alguma síndrome, por vezes apresentando quadro inicial de alguma fragilidade.

Um fato marcante nessa trajetória, dentre tantos outros que nos impulsionou a continuar firmes no propósito, é o da sra. Mariana (nome fictício para preservá-la) que chegou na Instituição em depressão, sem vontade de sair, de se arrumar, comia somente por necessidade, sem vontade e quando perguntado na entrevista “qual seu objetivo de vida?”, respondeu que estava só esperando a morte. Após a terapia em grupo e frequentando assiduamente as atividades da instituição durante alguns meses, sua vida mudou a ponto de retomar a sua autonomia, conseguir viajar sem um familiar junto e melhorou sua auto estima. Num belo dia, meu esposo levou o nosso carro ao mecânico e aproveitou para convidá-lo ao almoço beneficente à Casa do Vovô Feliz que aconteceria em poucos dias, quando ele lhe disse, “Estranho, conheci sábado uma senhora chamada Mariana que falou para mim dessa instituição, que a Casa do Vovô Feliz tinha lhe dado novamente a vida, que sem ela sabe onde ela estaria? dona Mariana me falou com toda a seriedade do mundo, a sete palmos da terra!”, contou ele emocionado!

A responsabilidade é grande e cresce a cada dia, encontramos muitas barreiras, desafios a enfrentar, mas vale cada sorriso que vemos nos rostos dos idosos beneficiados pela instituição, vale cada lágrima de emoção quando aguçamos nossos ouvidos numa escuta exemplar dos psicólogos e de todos que trabalham lá, de todos os profissionais envolvidos nos projetos da Casa, vale cada mudança de vida que pudermos propiciar e vale cada novo voluntário que se integre à causa do idoso!

Escrito por Teresa Takemura Kawasaki – Especialista em Gerontologia Social Aplicada pela Fundação Universitária Iberoamericana

Esse texto faz parte do FUNICONCURSO “Publicação Solidária” da FUNIBER (Fundação Universitária Iberoamericana) – www.estudarnafuniber.com